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OS RITMOS DA ALEGRIA
Trouxemos para você alguns sons de Carnaval do Recife: caboclinhos, maracatus, frevos de rua, frevos-canção e frevos-de-bloco aqui estão reunidos nesta paisagem, numa verdadeira seleção de ritmos que movimentam as multidões de foliões neste reino azul da alegria.
Índios, negros e brancos fundiram-se numa só gente. Transmudaram-se em morenos, caboclos, cafuzos, mamelucos e mulatos, criando uma festa única no mundo onde a felicidade por vezes faz sua morada.
Os caboclinhos representam neste panorama de folião os primeiros habitantes do Brasil, num tempo que ainda era chamado de Terra de Santa Cruz, nos primeiros anos do século XVI. Com o seu ritmo contagiante e uma coreografia própria, o auto do caboclinho chama a atenção não somente de visitantes, como da própria população que sente nele a força de suas raízes ameríndias, segundo testemunho do musicólogo Guerra Peixe: “é preciso presenciar o Carnaval do Recife para observar como - dentre as diferentes agremiações da cidade - os caboclinhos roubam as atenções da população, seja em virtude de sua indumentária colorida e estranha aos costumes ocidentais, seja pela singularidade da sua dança e da sua música, ambas agilmente executadas. [...] apesar de tudo que possa figurar no cenário, não é simples questão de opinião: os caboclinhos são a presença mais original no Carnaval do Recife”.
Trazendo consigo as tradições pré-cabralinas, as tribos de caboclinhos, com seus integrantes vestidos de índios, vêm as ruas com o seu bailado singular, seus autos inspirados na literatura indianista do século XIX, e sua música executada por pequenos conjuntos formados por flauta doce (inúbia), caixa de guerra, surdo, caracaxás (mineiros), sendo os seus passos acompanhados pelo estalido das preacas; que são pequenos arcos onde as flechas percutem na madeira dos primeiros impulsionadas pela força elástica do barbante que compõe o conjunto. A música dos caboclinhos, segundo Guerra Peixe, é sempre em andamento vivo, cerca de 144 semínimas por minuto, no início da peça, que vai se acelerando até atingir, com o entusiasmo dos músicos e dançarinos, até cerca de 166 ou um pouco mais.
O maracatu é a contribuição da cultura negra ao panorama musical e coreográfico desse carnaval. Originado das coroações dos reis negros, já registradas em França e na Espanha do século XV, bem como no Portugal do século XVI, o costume transfere-se para Pernambuco onde é citada documentadamente em narrativa de dez de setembro de 1666. A denominação maracatuservia, na primeira metade do século XIX, para denominar um ajuntamento de negros, como aparece no noticiário da fuga da escrava Catarina que “nos domingos costumava vender verduras no maracatu dos coqueiros, no aterro dos Afogados” (Diário de Pernambuco, 1º de julho de 1845), servindo depois para dominar os cortejos dos dignitários negros que, costumeiramente, compareciam às festas religiosas do Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora dos Prazeres dos Montes Guararapes. O conjunto, aberto pelo embaixador com o estandarte da nação, é formado pelo casal real, rei e rainha, abrigados sob um pálio, em forma de grande guarda-sol sempre a girar, seguindo-se
das baianas e damas-do-paço, responsáveis pela parte rítmica do cortejo. Seculares nações africanas, a exemplo do Elefante (1801) e do Leão Coroado (1863), compareceram ainda hoje às ruas do Recife durante o carnaval ou em outras ocasiões festivas. Compositores das mais diferentes escolas, de Marlos Nobre a Ademir Araújo, inspirados neste singular cortejo estão a compor suas peças dentro da temática desse ritmo utilizando-se para tal não somente a percussão, mas também os mais diferentes instrumentos de sopro de uma orquestra.
Nesta paisagem carnavalesca, um ritmo é o grande responsável pela aglutinação das multidões que tomam conta das ruas, becos e avenidas durante o carnaval ou em seus momentos de alegria. Surgido do repertório das bandas militares, com atuação na segunda metade do século XIX no Recife, o frevo pernambucano como música é o resultado da fusão da marcha, do tango brasileiro, do maxixe, da quadrilha, do galope e, mais particularmente da polca e dodobrado, que num mesmo cadinho deram origem a esta música singular de andamento alegro, ainda hoje em franca evolução rítmica e coreográfica. Inicialmente tais composições possuíam letras, comoé o caso do dobrado Banha Cheirosa, da segunda metade do século XIX citado por Pereira da Costa (1908); da Marcha nº 1, composta por Matias da Rocha e Joana Batista em 1909, e de Eugênia, de autoria de Manuel Guimarães (1907), ambas do arquivo do Clube Carnavalesco Vassourinhas (1889), passando depois a ser meramente instrumental.
Com o surgimento do bloco carnavalesco misto, no início dos anos vinte, a marcha carnavalesca pernambucana veio contar com o concurso de uma nova espécie de composição carnavalesca oriunda dos autos natalinos do presepe e do pastoril. Assim surgiu a marcha-de-bloco, que logo conquistou o disco com Borboleta não é ave (Odeon nº 122.384) em 1923, de autoria de J. Borges Diniz e Nélson Ferreira, como complemento que estava a faltar ao frevo instrumenal e ao frevo cantando das ruas.
Nos anos trinta convencionou-se dividir o frevo em frevo de rua, frevo canção e frevo-de-bloco.
O primeiro, de andamento alegro, com cerca de 160 semínimas por minuto, é puramente instrumental geralmente com dezesseis compassos na sua primeira parte (melodia inicial) e na frase musical, chamada de “resposta”. Esta, por sua vez , antecede a segunda parte, que nem sempre é uma repetição da introdução e possui o mesmo número de compassos. É feito inicialmente, para ser executado em seu aberto, na rua, como a sua denominação está a exigir. Sua base melódica é responsável pela coreografia do passo e pela movimentação das multidões de foliões e desfiles de clubes carnavalescos, não só do Recife como de outras cidades da região.
Derivado da ária, o que mostra a influência das companhias de óperas no carnaval de rua do Recife, o frevo-canção foi no passado o frevo cantado das ruas que ganhou os salões e novamente, retornou às ruas em 1980 com o surgimento da Frevioca. Com uma introdução orquestral, com cerca de dezesseis compassos e andamento melódico semelhante ao frevo-de-rua, seguindo-se de letra com cerca de dezesseis compassos e andamento melódico semelhante ao frevo-de-rua, seguindo-se de letra com geralmente duas estrofes em andamento mais lento, o frevo-canção é a mola mestra de animação de salões e das multidões que acompanham alguns clubes e freviocas (orquetras volantes em carro alegórico) nos dias de carnaval.
O frevo-de-bloco é a última variante desta classificação. Surgido das reuniões familiares, particularmente dos presepes e procissões de queima da lapinha, este gênero de frevo é também chamado de marcha-de-bloco. O bloco é hoje a amis forte expressão do carnaval informal do Recife. Ao som de suas marchas contagiantes, executadas por orquetras de cordas e madeiras (violões,bandolins, cavaquinhos, violinos, banjos, contrabaixos, flautas, clarinetas), acrescidas nos dias atuais de saxofones, bombardinos, trompetes e tubas, após uma introdução orquestral, num andamento de cerca de 120 semínimas por minuto, segue-se um coro de vozes mistas (antes somente femininas) a entoar as mais belas jóias do nosso cancioneiro carnavalesco. O bloco carnavalesco misto é o mais importante repositório poético desta singular festa, o complemento que estava a faltar neste reino azul da fantasia.
Tudo, como diria o poeta Carlos Pena, “para extinguir em nós o azul ausente e aprisionar no azul das grata”...
Leonardo da Silva Dantas, é jornalista, escritor e autor em parceria com Mário Souto Maior, do livro Antropologia do Carnaval de Recife. Recife: Fundação Joaquim Nabuco - Editora Massangana, 1991. 513 p. il. telefone: 5581 227 4910
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