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ESPETÁCULO EM NOME DA ALEGRIA
Tenho com o Recife uma relação profundamente carnaval/carnavalíssima. Velho entrudo do sábado de “Zé Pereira”, quando “o galo canta e anuncia a madrugada de um novo dia”, até as lágrimas contrariadas da “quarta-feira ingrata”, eu, o Recife e o carnaval somos três em um só personagem, de um só tempo, no mesmo espaço.
O espaço é o delírio místico promovido por Dionísio, espetáculo libertino. Escândalo pagão que ferve e queima “senhoras tão delicadas e divinais, senhoras que o mais leve trabalho as fadiga nestes dias, tornam-se bacantes, de cabelos soltos tão furiossos, que mais parecem completamente loucas”. Somente as cinzas da quarta exorcizam o diabo no couro, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Não joguei fora o carnaval da minha infância. Sou menino e sou homem. Sou adolescente e sou adulto na fusão dos tempos, graças à permanência deste “binário tão sacudido, tão pessoal, tão típico como é o frevo”. Matias da Rocha, Joana Batista, Edgar Moraes, Antonio Maria, Felinto, os irmãos Valença, Nelson Ferreira, Capiba, Luiz Bandeira, Getúlio Cavalcanti, Zé Menezes, Duda, Ademir, Edson, Carlos Fernando, Michiles e Alceu não passarão. Estaremos para sempre, no céu ou na terra, “de braços para o alto, cabelos desgrenhados, frevando sem parar”.
Personagem, sou anjo e demônio. Sou Narciso encantado com a alegria do meu rosto refletido no espelho da máscara. Assim me basto. Assim me bastam o bêbado desconhecido, a moça atirada, o folião mascarado, a quem ofereço solidários abraços, no começo, sólidos laços, e que, no final da festa, são, apenas, vínculos lassos.
Gustavo Krause é ministro do Meio Ambiente e Recursos Hídricos
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