Galo 97


CARNAVAL


Conheci o grande Carnaval pernambucano na primeira metade da década de cinquenta. Naquela época, o programa da rapaziada da classe média era o seguinte.

Pela manhã, saía-se nas troças, percorrendo os bairros, com fantasias rústicas, pandeiros, tamborins, tambores e alguns instrumentos de sopro. Entrava-se nos lares amigos, uma cervejinha aqui, uma batidinha ali, muita cuba-libre, raros uísques.

À tardinha, corso de automóvel na Conde da Boa Vista, pegando Guararapes, Concórdia, Palma, Rua Nova. Quem tinha carro conversível esnobava. Arriava a capota, enchia de “brotos” fantasiados, bom estoque de lança-perfume, confete e serpentina. Quem não tinha, retirava as portas, a tampa da mala, e seja o que Deus quiser. Geralmente o diabo queria e podia mais. Havia também as batalhas de pitomba e talco, um carro acertando o outro. E houve tempo em que o fatídico mela-mela imperou, dando oportunidade aos cafajestes e recalçados de sujar os outros e até usar urina e soda cáustica, queimando e deformando pessoas. Um pesadelo.

Às dez, onze da noite, hora de passar em casa, tomar ducha fria pra espantar a ressaca, comer um sanduíche, vestir a fantasia nova e bonita e se picar pro Internacional, Sport, Cabanga, Náutico, Santa Cruz, Português, Country, Caxangá. Nesses anos cinquenta, que falei, o mais animado e concorrido era o Internacional, com a orquestra de Zacarias, vinda do Rio, revezando com as pernambucanas, principalmente a de José Menezes. Quatro dias de salão lotado, bebedeiras monumentais, porres de lança homéricos (até Jânio), brigas formidáveis. A turma não respeitava o forte policiamento composto de investigadores civis, militares, e até soldados do Exército. Capitão Machadão, durão, ex-combatente da Itália, morador de Olinda, costumava comandar as “tropas do Exército”. Os aspirantes do CPOR, por questão de afirmação, gostavam de badernas em clube, para mostrar a carteirinha e não ser preso. O rei das arruaças era um louro grandalhão, boa praça, estudante de engenharia da Politécnica.

O Cabanga não fazia por menos: botava patrulhas de fuzileiros navais, para acalmar os valentes, e o Atlético de Amadores, Rádio-Patrulha da PM. Seu baile dos casados, aos domingos, era tradicional. Os coroas saltavam as frangas nesse dia, dando vazão a fantasias eróticas sublimando todo o ano de pressões, proibições, limitações e castrações conjugais. Presença maciça de políticos famosos, intelectuais, empresários, jornalistas, escritores, artistas, a “fina-flor”da macharia maurícea. Mulheres semi-nuas, de todas as idades e procedências, machões, gays enrustidos e assumidos, cenas de sexo quase explícito, proibida terminantemente a presença incômoda e indiscreta da imprensa “falada e escrita”, fotógrafos e televisão. Nada que servisse de prova para aumentar o número de separações judiciais ou de fato. Meu primeiro casamento balançava todos os domingos de Carnaval. Mas eu não resistia aos apelos da carne - e bote carne nisso. Afinal, dos brinquedinhos antigos ainda é o melhor.

Nilo Coelho, um dos maiores foliões pernambucanos, não perdia a matinée dos casados do Atlético. Governador em exercício, comparecia ao clube, entrava no salão, dançava, bebia seu uísque, sempre com uma toalha enrolada no pescoço. Gordo, enxugava o suor abundante com a tal toalha, mas ninguém entendia porque cheirava tanto aquele pedaço de pano felpudo. Ou fingia não entender. Faça o que eu mando e não o que eu faço. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

O melhor do Carnaval era o último dia do Internacional. Quarta-feira de Cinzas o sol encontrava os retardatários e recalcitrantes fazendo o passo, ao som da orquestra enfadada. Do salão, os passistas saíam acompanhados pelos músicos, pulando na rua, se despedindo saudosos do Rei Momo. E voltávamos pra casa, na Capunga, a pé, tomando o leite que os leiteiros depositavam nos portões das residências. Não há dúvida : mudou o carnaval, mudei eu, mudou Recife.

Arthur Carvalho, advogado e jornalista, é presidente do Conselho de Ética da Associação dos Jornalistas de Pernambuco.


       

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